As condições do sistema carcerário atentam
contra a mínima dignidade dos presos, e um dos maiores agravantes é a
superlotação
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No Brasil o sistema prisional talvez seja a área da administração em que os políticos mais falam e fazem besteiras, frases como “lugar de bandido é na cadeia”, “tem que acabar com benefícios que encurtam penas”, “vamos reduzir a maioridade penal” e, principalmente, “preso precisa trabalhar para pagar os custos da prisão” soam como música aos ouvidos da sociedade acuada pela violência.
É
compreensível que a maioria da população esteja de acordo com estas ideias. Dos
que se candidatam para governar os estados e o país, entretanto, esperaríamos
mais responsabilidade para não criar expectativas fantasiosas e evitar
políticas inexequíveis num campo tão sensível.
Antes
que a Sociedade tire conclusões apressadas, deixo claro que não gosto nem sou
defensora de bandidos, que também quero ver preso o assaltante que rouba e mata
e que, em caso de conflito violento entre bandidos e policiais ou agentes
penitenciários, só não fico do lado dos agentes da lei se estes também forem
criminosos.
Outrora
tínhamos 90 mil presos. Hoje, temos cerca de, 812.564 presos, segundo o Banco
de Monitoramento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Não é verdade que
prendemos pouco. O problema é que mandamos para trás das grades pequenos
contraventores e deixamos em liberdade facínoras com dezenas de mortes nas
costas.
Nos últimos anos o número de encarcerados tem aumentado assustadoramente, e as
cidades brasileiras tornaram-se muito mais perigosas, não é preciso ser
criminalista com pós-graduação para concluir: prender tira o ladrão da rua, mas
não reduz a violência urbana.
A
pior consequência do aprisionamento em massa é a superpopulação. Os que não
aceitam o argumento de que a pena de um condenado deve ser a privação da
liberdade, não a imposição de condições desumanas, precisam entender que o
castigo das celas apinhadas tem consequências graves para quem está do lado de
fora.
Quando
trancamos várias pessoas numa cela com capacidade para receber menos da metade,
como acontece nos Centros de Detenção Provisória em quase todos os presídios do
país, os agentes penitenciários perdem a condição de garantir a segurança no
interior das celas. Como o poder é um espaço arbitrário que jamais fica vazio,
o crime organizado assume o controle e impõe suas leis.
A
sociedade deveria ser mais participativa, são pessoas humanas vivendo de forma
desumana, precisamos abandonar o velho discurso cruel da aceitação de quem está
preso “Fez por merecer”. Claro, em tese sim, quem está detido é porque cometeu
algum delito ou vários, as determinações que fazem alguns cometerem crimes e
outros não, são fatores circunstanciais. O Poder Judiciário é falho e muitas
vezes omisso.
Encarcerar
seres humanos em condições inapropriadas com celas superlotadas, sujas, úmidas,
quentes, com insetos, roedores, e com risco de contágio de doenças é
considerado um sistema punitivo impiedoso, por isso é difícil a ressocializão
de um ex-detento, e o mesmo acaba reincidindo suas práticas. Meu objetivo não é
justificar criminosos, mas sim, a maneira como todo sistema carcerário se
comporta diante desses fatos. E como isso acaba reverberando em toda a
sociedade.
Por: Afra Freire
RGM: 19287216